Cidades Criativas: Entrevista com Ana Carla Fonseca

O que sao Cidades Criativas Ana Carla Fonseca Reis

Ainda para comemorar o Dia Mundial das Cidades e o Dia Mundial do Urbanismo, o Entre Esquinas vem falar sobre Cidades Criativas e Economia Criativa. Para compreender melhor sobre o assunto, o blog entrevistou uma profissional de referência na área, a Dra. Ana Carla Fonseca Reis.

Antes, vamos falar um pouco sobre esses termos bastante utilizados atualmente: o que são Cidades Criativas, seu processo histórico, como podem ser caracterizadas e o que significa Economia Criativa.

Não deixe de conferir a entrevista com Ana Carla no final desta postagem!

FLIP em Paraty - Cidades Criativas

Paraty, no RJ, atrai milhares de pessoas com a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Imagem: Nelson Toledo

E então, o que são Cidades Criativas?

Para falar o que são Cidades Criativas, primeiro é interessante olhar para trás e analisar o processo histórico.

[pullquote align=”right” cite=”Peter Kageyama¹” link=”” color=”” class=”” size=””]”A cidade criativa é um sentimento (…) de que algo está acontecendo, de que algo poderia acontecer e de que esse algo será interessante. É um sentimento de movimento, de momentum”[/pullquote]

A década de 80 foi a precursora do movimento de Cidade Criativa, sendo discutidos termos como cultura e artes. Com o tempo, as cidades foram se transformando; cidades industriais precisavam se reinventar, e a criatividade parecia ser a solução. Essa evolução foi dada principalmente pelo esforço da comunidade artística para provar seu valor econômico, como eles poderiam utilizar sua criatividade em prol da cidade e de sua economia.

A competitividade, até então baseada em capital financeiro e investimento, passa a ser baseada em inovação, com novos processos, métodos, tecnologia, eficiência, sustentabilidade e com as novas invenções, os direitos autorais.

A primeira definição de Cidade Criativa era “um lugar onde os artistas desempenhavam um papel central e onde a imaginação definia os traços e o espírito da cidade”. Mas com o tempo, as cidades perceberam que não apenas deveriam ser consequências de um processo criativo, mas também, a causa.

Bela Rua (Rua)³ Cidades Criativas

Ao mesmo tempo em que leva cultura, diversão e arte o (Rua)³ do coletivo Bela Rua realizar estudos e pesquisas para entender os anseios e vontades da população.

Quais são as características de uma Cidade Criativa?

[pullquote align=”left” cite=”Peter Kageyama¹” link=”” color=”” class=”” size=””] Uma Cidade Criativa possui a “possibilidade indisciplinada de encontros fortuitos”[/pullquote]

De acordo com Charles Landry ², “nosso sistema educacional é responsável em grande medida por quão criativos nós nos formamos”, assim, a base para a mudança das cidades é seu Sistema de Educação. Aulas e didáticas mais flexíveis resultam em alunos mais conscientes e participativos.

Além disso, a criação de formas de gestão e governança com nova mentalidade e mais flexibilidade também é de suma importância para a prosperidade econômica e estabilidade social, além da continuidade de suas estratégias entre mandatos e gestões. Cidades Criativas precisam ter uma liderança forte, não necessariamente vindo da esfera pública, podendo vir também de ativistas urbanos e agentes de mudança. Entretanto, essa governança precisa ser colaborativa, onde o público, o privado e a sociedade civil estejam interligados.

Podemos falar, então, de um “Ambiente Criativo“, onde pessoas encontram ambientes pré-condicionados, aguçando sua curiosidade e sua imaginação, e como consequência, aumentando a sua criatividade e ampliando os processos de inovação. As cidades devem, portanto, criar um ambiente agradável e atrativo para pessoas criativas, com espaços públicos e pontos de encontro, como praças, cafés e galerias de artes, além de boa arquitetura e edifícios históricos preservados, criando e incentivando conexões, identidades e a memória da população.

Centro de Bergen, Noruega - Cidades Criativas

Os espaços urbanos e praças (chamados de ‘almenninger’) do centro de Bergen, na Noruega, são expressões físicas do direito público de acesso. Imagem: Bente Laading

Como já foi falado em relação ao Outubro Urbano, “uma cidade deve possuir um bom design, pois assim, poderá contribuir para uma vida melhor de sua população”. Construir espaços espontâneos, sem atividades rígidas pré-estabelecidas, adicionar elementos arquitetônicos informais e instituições sociais nas redondezas, por exemplo, ajudam no planejamento urbano, levando espaços públicos mais vivos e estimulantes, e consequentemente, atraindo os chamados “trabalhadores do conhecimento”.

Toda cidade, independente de seu tamanho, tem potencial para ser criativa. Essa cidade se torna dinâmica, estimulando a mentalidade e a participação da população em assuntos políticos e urbanos, envolvendo-os em um sonho coletivo, uma causa comum. Esses lugares também possuem como semelhança a diversidade, igualdade de gênero, distribuição econômica e de emprego, habitação justa, além de sustentabilidade, segurança e mobilidade focada no pedestre, e não nos carros.

E a Economia Criativa?

Esses novos ares ajudam a trazer à tona a Economia Criativa, uma nova fonte de criação e agregação de valor, com raízes na Austrália, a partir da expressão Creative Nations, na década de 90. Essa economia engloba originalidade, inovação, cultura local e estimula mudanças organizacionais, políticas, econômicas e sociais através de atores como o governo, empreendedores, instituições e as chamadas “indústrias criativas” (setores criativos que estimulam a economia, como arquitetura, design, moda, serviços de computação e propaganda) . De acordo com Ana Carla Fonseca, “para chegar ao porto da Cidade Criativa, utilizar a bússola da Economia Criativa é uma excelente estratégia”.




Outro fator que ajuda na economia das cidades é o turismo. Cidades Criativas costumam atrair muitos turistas, que acabam ajudando em seu crescimento, na injeção de capital, no surgimento de hotéis e pousadas e consequentemente na criação de empregos. Entretanto, há de se ter cuidado com a gentrificação, pois a cidade pode acabar mudando completamente para se adaptar às necessidades dos turistas, fazendo com que o local perca sua identidade e os moradores se mudem.

Entrevista com Ana Carla Fonseca Reis

Em julho de 2015, nós do blog Entre Esquinas, tivemos a oportunidade de participar do “Seminário de Inovações Urbanas”, realizado na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Neste encontro foram abordados assuntos pertinentes à cidade, como apropriação do espaço público, ações de coletivos, relação entre esfera pública, privada e sociedade, entre outros. Foi nesse evento que conhecemos Ana Carla, então organizadora do evento e nos inteiramos mais sobre o assunto.

Ana Carla Fonseca Reis Cidades Criativas

Ana Carla Fonseca Reis, Dra. em Urbanismo pela USP

Para falar sobre Cidades Criativas e Economia Criativa, entrevistamos, portanto, Ana Carla Fonseca Reis, Economista (USP) e Administradora Pública (FGV/SP), Mestre em Administração (USP) e Doutora em Urbanismo (USP). Autora e editora dos livros Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável (Prêmio Jabuti 2007), Economia Criativa como Estratégia de Desenvolvimento (2008), Cidades Criativas, Soluções Inventivas – o Papel da Copa, das Olimpíadas e dos Museus Internacionais (2010), Cidades Criativas – Perspectivas (2011) e Cidades Criativas – da Teoria à Prática (2012). Ana Carla também é Sócia-Diretora da Garimpo de Soluções – economia, cultura & desenvolvimento.

Entre Esquinas: Como uma cidade pode se tornar criativa?

Ana Carla Fonseca Reis: Primeiro temos que alinhar nossos olhares sobre o que seria uma cidade criativa. Na Garimpo de Soluções entendemos por criativa uma cidade que se reinventa permanentemente e tem três pilares de sustentação: inovações (em sentido amplo – das de P&D às sociais), conexões (entre áreas da cidade, tribos urbanas, história e planejamento da cidade que queremos, entre agentes que a compõem, o que chamamos de novas governanças urbanas); e cultura (como identidade, remetendo ao genius loci dos antigos romanos, mas também como diversidade cultural e efervescência de propostas).

Entre Esquinas: E seus agentes (sociedade, poder público e poder privado), como podem auxiliar neste processo?

Ana Carla: Quanto ao papel de cada um, o que observamos ao longo de uma trajetória de trabalhos em 30 países e mais de 160 cidades é que sempre há um catalisador de processos de mudança. Às vezes são grupos da sociedade civil organizada (como em Paraty), outras o governo (vide Nantes), outras ainda uma iniciativa privada (a exemplo de Lima), que acendem como um palito de fósforo em meio à penumbra, indicando novos caminhos possíveis; se essa faísca se transformará em labareda de maior fôlego, porém, depende da participação de todos. Não conhecemos nem concebemos um processo de transformação urbana, estruturante e duradouro, sem que sociedade civil, público, privado e não raro a academia estejam juntos.

Entre Esquinas: No dia 31 de outubro, a ONU celebrou o Dia Mundial das Cidades, com o tema: “Cidades: Desenhadas para Conviver”. Este seria um requisito obrigatório para uma cidade ser considerada criativa?

Ana Carla: A criatividade se abastece de diversidade que convive (não a diversidade encastelada em guetos). Sem convívio não há trocas de ideias, as reações não se convertem em massa crítica de mudança, sem convívio não há cidade, já que toda cidade entendida como tal é um sistema vivo.

Entre Esquinas: Falando agora em Economia Criativa, existem dificuldades em estabelecê-la em países em desenvolvimento, como o Brasil? Se sim, como contornar esta situação?

Ana Carla: Economia criativa é um novo paradigma econômico, próprio ao ciclo no qual nos inserimos e que foi catalisado pelas tecnologias digitais. Com isso, além do impacto em nossas vidas e no ambiente de negócios, a globalização atingiu profundidade e envergadura inéditas, os ciclos de vida de produtos e serviços se encurtaram e ativos como capital e tecnologia passaram a ser muito facilmente transferíveis pelo mundo. Por decorrência, alguns países e/ou cidades perceberam que a única alternativa a concorrer por preço baixo é fazê-lo com base em inovação, valor agregado, diferenciação – e que, para isso, o ativo econômico mais importante é o talento criativo. A beleza da economia criativa é justamente trazer o ser humano de volta para o centro do debate econômico. É exatamente nesse quesito que os países em desenvolvimento (a exemplo do nosso) apanham – da triste qualidade da educação da maioria da população, à baixa produtividade do trabalhador; do acesso difícil e caro às tecnologias de informação, à dificuldade em termos espaços de convívio seguros e acolhedores nas cidades de maior porte. Do ponto de vista econômico, não basta ser criativo; é preciso converter essa criatividade em inovação – o que exige ao menos esses quatro percalços que temos de vencer.

Entre Esquinas: Para finalizar, uma pequena brincadeira do nosso blog. Quem é Ana Carla Entre as Esquinas de uma cidade?

Ana Carla: Um curiosa incurável e apaixonada pelas maravilhas que a cidade oferece, mas nem sempre se dão a ver.


Para acompanhar o trabalho de Ana Carla Fonseca, entre no site do Garimpo de Soluções, onde são disponibilizados livros, artigos, entrevistas, programas de seminários, vídeos e projetos de inteligência coletiva e também na página do Facebook.

Recomendados a leitura dos livros que foram utilizados como fonte de pesquisa para esta publicação:

– Cidades Criativas – Perspectivas (2011), que pode ser baixado gratuitamente aqui;

– Cidades Criativas – da Teoria à Prática (2012), que pode ser encontrado em diversas livrarias.

¹ Peter Kageyama: co-fundador e produtor do Creative Cities Summit. E-mail: peter@creativecitiesproductions.com. Site: http://www.creativecitiesproductions.com

² Charles Landry: autoridade referencial em criatividade e seus usos e em como o futuro das cidades é moldado, ao se atentar à cultura de um local. É autor de The Art of City Making e de The Creative City: A Toolkit for Urban Innovators. E-mail: charleslandry@comedia.org.uk. Site: http://www.charleslandry.com

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Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Acredita que estar sempre atualizada e buscando conhecimento seja a fórmula para o sucesso e realização pessoal. Além de passar seu tempo projetando e criando, gosta de livros, filmes, séries, festas e exposições.